domingo, 19 de junho de 2016

A PRETA RETINTA NÃO TEM AUTORIDADE PARA FALAR

Olá, pessoas queridas!


Inicio essa postagem já falando sobre o termo Preta Retinta. É que minha cor na certidão de nascimento, está "PRÊTA". Portanto, ao nascer, ninguém teve dúvidas sobre a cor da minha pele e eu também não.
Kkkkkkk


Gostaria de compartilhar algumas experiência dessa minha fase de palestrante.
Confesso que tem sido interessantemente desafiador esse momento da minha vida. Sinto Deus direcionando meus passos ao encontro de um público sedento por ouvir, dentro e fora da Igreja, que por Ele ser perfeito, criou o Continente Africano para dar inicio à sua criação, e que, portanto, o povo negro é abençoado de Gêneses à Apocalípse.
Chamado missionário diferente esse...Rsrsrsr
Ao ser convidada para falar em escolas, faculdades e algumas igrejas, a experiência é sempre impactante e enriquecedora. Só que começo a observar que minha fala sempre incomoda algum ouvinte(o que é normal), que procura desautorizar o que eu falo, ainda que eu esteja embasada com dados fornecidos por instituições públicas e privadas de referência.
Também observo que são sempre pessoas que têm um tom de pele mais clara, o chamado pardo. Pode ser homem ou mulher.
Já tive situação diferente onde um professor e uma aluna interromperam  minha fala por um tempo e disse que iria embora, pois discordava de tudo o que estava sendo exposto, já que eu falava sobre a diversidade religiosa no afrodiaspórico. Nas duas situações eu pedi, pacientemente, que  se retirassem porque precisava dar continuidade ao trabalho.
Em outra situação fui convidada para falar sobre violência doméstica em uma determinada igreja evangélica. Foi então que uma irmã identificando-se como branca(SQN), e fez questão realizar "quase" a palestra no meu lugar. Quando finalmente foi cedida minha fala, abordei os tipos de violência simbólica que nós mulheres estamos passíveis de sofrer, inclusive as mulheres evangélicas; que existe a Delegação de Atendimento à Mulher e o disque 180 para denúncia de violência doméstica. Para minha surpresa, quando terminei a palestra, a referida irmã pediu mais uma vez um momento para falar e disse que mesmo quando as irmãs sofressem algum tipo de violência, deveriam primeiro buscar orientação de Deus antes de tomar qualquer decisão. Percebi então que ela queria ter a última palavra ainda que fosse para desconstruir o que eu tinha falado.
Também tenho enfrentado reações machistas de alguns irmãos que não aceitam de bom grado minha fala sobre gênero e raça. Já ouvi de um irmão que acha errado uma mulher evangélica ser feminista.
Então eu pergunto: eu não posso falar sobre violência doméstica, Lei Maria da Penha, a cultura do estupro no Brasil? Não posso pensar e falar sobre o extermínio da Juventude Negra, a mortalidade materna que acomete mais as mulheres negras(segundo dados do Ministério da Saúde)?
Não posso falar em público?
Mas também existem os não-evangélicos que as vezes têm a mesma postura.
Irmã, essa sua fala é de coitadinha, é de vitimização; que tudo é racismo. Estou sempre ouvindo isso...
Só lembrando que negro não pode ser racista, pois racismo tem a ver com relação de poder. 

Na verdade, começo a perceber que algumas pessoas se sentem incomodadas porque não é qualquer negra que está falando. A cor da minha pele é quase o último tom na escala degradê...Rsrsrsr (Intelectuais Negras - Bell Holks)

O que essa "nega preta" está achando que é para falar assim?!!
Hummm...

Também sei que sou o espelho que essas pessoas evitam olhar, pois reflito a imagem que elas tentam apagar da memória por diversos motivos. Talvez por isso procuram desautorizar o que falo.

Certa vez ouvi de um colega de escola: _Gicélia, se você tivesse nascido no período da escravidão, não sairia do tronco.(Ele era sarará). Isso porque sempre externei minha opinião sobre os assuntos abordados pelos professores na sala de aula. Também foi nesse período que pela primeira vez tive uma fala minha impressa nas provas da disciplina de sociologia do curso de magistério. Lembrei disso essa semana.
Sei das chicotadas simbólicas que recebo até hoje...

Obrigada Senhor Jesus, por ter escolhido exatamente esse tom de pele para mim e por estar me sustentando com saúde e sabedoria para fazer a tua obra.


Gicélia Cruz

Eu sou preta e bela, ó filhas de Jerusalém.(Ct 1.5)

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